Solos


Solos é uma seleção dos desenhos de pisos que Adalgisa Campos vem colecionando há três anos. No Paço das Artes, os escolhidos são aqueles que a artista pôde encaixar na área de 80 m2 que a instituição oferece aos participantes da Temporada de Projetos, mantendo a escala 1: 1 adotada em todos os seus desenhos de chão. Parece impossível detectar o que esses pisos têm para merecerem estar em sua seleta coleção ou imaginar o que a faz deter-se a anotar o desenho específico do chão de um lugar, com cada uma de suas medidas. Como em todas as coleções, há algo de arbitrário na escolha dos componentes. A partir dessas inclusões e exclusões, a coleção constitui um conjunto de elementos e possibilidades combinatórias, que podem ser apresentadas em diferentes conjuntos e construídas com materiais variados. No Paço das Artes, uma fita adesiva permite a aplicação dos desenhos diretamente sobre o piso real e a sua aderência a esse chão, como uma camada contígua de linhas e sentidos. Estes Solos transpostos parecem a representação mais isenta dos solos Ihes deram origem: desenhos lineares em escala real sobre um fundo preexistente. É interessante como estas reproduções fiéis de diferentes pisos constroem um novo ambiente real e talvez seja, em parte, porque mantêm suas dimensões reais, o um tamanho de coisa do mundo. Parece que quanto mais fiel ao chão de origem é o chão-desenho maior é a possibilidade de uma existência autônoma do segundo. Penso que o limite entre a representação e a construção de algo novo está na possibilidade de se instaurar uma relação direta e presente entre o observador e objeto que se apresenta, uma relação que independa do referente. Os desenhos de Adalgisa, executados com um material que nos permite pisá-los e construí-los sem paredes que os contenham, formam uma ilha que podemos habitar e atravessar com os olhos ou a pé. Assim, os Solos oscilam entre a referência imediata aos lugares de onde vêm e a lugares semelhantes já visitados por quem os vê, ou os pisa, e a composição das linhas retas sobre o plano horizontal; somam o mapeamento de lugares e suas imagens a um discurso sobre o desenho e a ocupação do espaço. Semi-isolados pela linha pontilhada que demarca o lote para jovens artistas, os desenhos ativam a trama do rejunte dos tacos, apropriando-se de toda a área do Paço como fundo. Essa nova aderência tensiona mais uma vez as relações entre estes Solos e os solos; as relações entre o desenho e o fato.

Carla Zaccagnini
2002
Texto para a exposição 'Solos' - Paço das Artes - São Paulo


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